segunda-feira, 12 de março de 2012

Superman: Literalmente um Mito Solar



Na minissérie All Star Superman (Grandes Astros Superman no Brasil) o famoso herói alienígena foi alçado ao status de mito. Como não poderia ser diferente, o autor  foi Grant Morrison, demonstrando, novamente, a sua erudição na área religiosa-mitológica e a profunda compreensão do que é a Jornada do Herói - para os que desconhecem, o mito do Herói Solar é constante na história humana como observou Joseph Campbell: trata-se de um padrão onde um indivíduo que sofre grandes adversidade, possuindo uma origem divina desconhecida a princípio, enfrenta situações extremas, as supera, morrendo para renascer ao final. Dos heróis gregos a Jesus Cristo passando pelos mitos do oriente e indígenas, o herói sempre esteve presente na cultura humana. 

Caso exista alguém que ainda não saiba, Superman foi mandado pelos seus pais vindo de outro planeta quando este explodiu. Chegando aqui, graças ao sol amarelo, ele ganhou super-poderes e os utiliza em prol da humanidade.

A estória em questão trata da última aventura do Superman, envenenado, ironicamente, por radiação solar graças ao seu nêmesis, Lex Luthor. Na última edição tratada aqui ele chega ao clímax, debilitado, após combater vários inimigos estando ainda o sol enfraquecendo devido a uma das últimas ameaças enfrentadas. Entrando na luta final com Luthor, que adquiriu os seus super-poderes, é chegada a hora do crepúsculo do herói. 

A última parte começa com uma alucinação do Superman, adulto, no seu extinto planeta natal, Krypton onde o seu falecido pai, Jor-El, o leva para uma conversa. Aqui percebemos um prenúncio do fim, onde o cenário, um planeta tão morto quanto o pai, servem como indicação. Superman ouve tudo o que está acontecendo: a overdose de radiação amarela do sol está, de fato, acabando com ele. Jor-El diz:

 "O seu corpo está sofrendo uma mutação, uma conversão para rádio-consciência solar! Você deve se render ao processo."

Utilizando a sua tradicional verborragia pseudo-científica, o escritor continua a explicação pela boca do pai solidificando as bases da sua ficção-mitológica:

"Matéria, energia... essas coisas não podem ser criadas ou destruídas... a consciência também não, Kal-El de El. Após a morte corporal, conforme estudos Neoconservadores confirmam, a consciência individual persiste durante algum tempo e constrói para si palácios de pensamento ou complexos infernos para habitar..."



A figura paterna

Nada mais adequado do que a figura paterna para explicar a situação. O arquétipo do pai  tem como uma das funções ensinar; o filho aprende dele coisas como valores morais, a desenvolver habilidades para serem usadas em sociedade como a caça e "mostrar o lado duro da vida", em oposição a mãe, responsável pela parte carinhosa da criação. Ele encerra, ao final da alucinação, voando em direção ao sol de Krypton:

"Mas o melhor de nós, o ouro em nós, sobreviverá em você! Tudo o que é impuro será queimado até virar cinzas. E tudo que for forte, grandioso e verdadeiro sobreviverá e renascerá."

Percebemos claramente uma metáfora alquímica relativa à transformação. A estória de transformar chumbo em ouro enganava os alheios àquela pseudo-ciência também por causa de outra máxima: "Só se produz ouro com ouro". Na verdade, metais puros encontram-se misturados a minérios, devendo ser extraídos. Obviamente isso leva a um tipo de determinismo pois deve existir previamente algo nobre dentro de cada um. Não existe transformação milagrosa, uma conversão radical como a citação alquímica mais famosa faz entender. Aqui podemos tratar como metáfora de virtudes ocultas que desconhecemos, escondidas por restrições morais, religiosas ou sociais, referências ao despertar de divindades internas de cada um, segundo algumas religiões ou crenças esotéricas ou, segundo a psicanálise, a "sombra dourada".


O Sol numa representação alquímica

Superman então acorda, muito enfraquecido, e vai enfrentar a sua última batalha. Utilizando uma arma ele consegue resistir aos ataques do seu inimigo valendo-se de uma estratégia, a princípio, sem sucesso, até que algo acontece: Luthor, de posse dos super-poderes, aos poucos passa a sentir a verdadeira extensão do que é ser Superman, não são apenas as características físicas que ampliam-se (força, vôo e velocidade) mas a percepção. No auge ele tem uma epifania:

"Desculpe... desculpe, estes novos sentidos... Na verdade eu consigo ver o maquinário e os fios conectando e separando todas as coisas desde que tudo começou... é assim que ele enxerga o dia todo, todo dia. Como se fôssemos apenas nós, aqui dentro, juntos. E somos tudo o que temos."

Essa passagem explica algo bem interessante: a postura moral do Superman. Ele não é bom porque foi criado por um casal de fazendeiros protestantes num lúdico meio-oeste estadunidense, não foi devido a quaisquer valores morais terrestres, Sócrates não explica mas Sidarta Gautama: Superman é bom porque ele age como um Buda, ele enxerga a verdadeira estrutura da realidade e vê que tudo está conectado, tudo é uma coisa só. Segundo o pensamento budista, o último estágio da iluminação chama-se Nirvana, a "união com o todo" onde percebe-se que todas as coisas existentes estão vinculadas, não havendo separação entre elas. A dor de um é a dor de todos e ninguém deve ser prejudicado, nem mesmo os vilões. Muito da posição desse herói é criticada nos dias de hoje, vista como ultrapassada, pois alguém com tais poderes, deveria usar de forma mais ativa, agindo mais diretamente em questões políticas por exemplo, ou até egoísticamente em benefício próprio. Mas isso serviria, no máximo, para minar a capacidade humana de evoluir por si mesma. Ele serve mais como um símbolo de padrões elevados de moral do que um auxílio direto aos humanos. Assim comporta-se como um Buda, cujo objetivo (e de todo os ditos místicos ou magos) é contribuir para a evolução da espécie humana e isso implica em deixá-la cometer erros e aprender com eles.


Superman e Lex Luthor

O embate final acontece através de uma  luta física comum entre ambos com Superman vencendo não pela força, mas valendo-se de artimanha: "enrola" Luthor até passar o efeito do soro que deu poderes ao vilão. Ao invés de um final apoteótico, em larga escala de tons cinematográficos, o combate termina com um simples soco no queixo. Tanto uma referência a origem dos quadrinhos, onde a maioria das lutas acabava assim, quanto àquilo que faz um herói de fato super: a inteligência - ironicamente a principal arma de Luthor sendo vencido em seu próprio terreno.

Superman, então, começa a morrer ou melhor, transformar. As suas células começam a se converter em energia pura e parte em direção ao sol para uma última missão: estabilizá-lo. Despede-se ali dos amigos, da namorada Lois Lane e voa em direção ao astro-rei. Isso remete aos belos finais cinematográficos onde o cowboy caminha em direção ao poente. Mas aqui o herói é solar, literalmente, permanecendo dentro da estrela estabilizando-a para todo o sempre.

O autor consegue elevar o Superman a condição divina utilizando perfeitamente a morte como renascimento, uma mudanca, fechando um círculo, pois os seus poderes vieram do sol e o mesmo astro o eleva ao status superior.  Ele, paradoxalmente, torna-se imortal sacrificando-se para manter o sol aceso salvando a raça humana. De certo modo, torna-se a própria estrela iluminando aqueles que mais ama. 

Não existe fim mais grandioso. E heróico.

O herói transcendido no (e como o) sol


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